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A profissão de programador ainda existe na era da IA?

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A profissão de programador ainda existe na era da IA?

A profissão de programador ainda existe na era da IA?

Tive o prazer de ser convidado de Florian Amstutz no HUMAN, a série do podcast PeopleUp dedicada à IA e à nossa relação com o trabalho. O tema do episódio resume bem a angústia do momento: o teu emprego ainda existe? Falámos sem rodeios sobre inteligência artificial, sobre o dia a dia de um programador independente, e sobre o que muda realmente na profissão.


O código não desapareceu, mudou de natureza

Durante muito tempo, a assistência ao código não cumpria as promessas. A cada três ou quatro meses voltava a testar as ferramentas, e até ao final de 2025 nunca foi convincente. O contexto era pequeno demais, o humano tinha sempre mais informação do que a máquina, por isso não funcionava verdadeiramente.

Tudo mudou no início de 2026, com a chegada de modelos capazes de gerir muito mais contexto, e de ferramentas para os enquadrar bem. Concretamente, acabei de entregar uma aplicação inteira sem escrever uma única linha de código. Passei o tempo a dar contexto, a explicar com precisão o que queria, a definir os limites e a orientar assistentes.

Não programei, mas passei imenso tempo a dar contexto. O tempo poupado no código, reinvesti-o a explicar exatamente o que queria.

O resultado neste projeto: com o mesmo tempo, entreguei muito mais funcionalidades ao parceiro.


«O problema já não é fazer, é o que escolher fazer»

É provavelmente a ideia mais importante do episódio. Uma funcionalidade que exigia duas semanas de desenvolvimento pode hoje levar uma tarde. Antes, numa lista de 200 ideias, realizavas três. Hoje, podes fazer quarenta.

Só que cada funcionalidade adicionada traz também a sua dose de bugs, de complexidade e de decisões. O campo das possibilidades explode, e com ele o número de escolhas a fazer.

Se há dez vezes mais possibilidades, há dez vezes mais decisões a tomar.

A dificuldade deslocou-se. Já não está na execução, está na escolha.


Porque é que saber programar continua indispensável

Se esta nova forma de trabalhar funciona para mim, é precisamente porque sei programar. Assim que um assistente vai na direção errada, vejo logo e consigo corrigir. A competência não desaparece, desloca-se para a capacidade de orientar, julgar e decidir.

Para ser honesto, esta mudança encaixa bem comigo:

Nunca fui apaixonado pelo código em si. Sempre fui apaixonado pelo que se pode fazer com o código.

O que me motiva é o produto, perceber a necessidade do negócio, criar algo útil. É aliás uma das razões pelas quais me tornei independente. Mas sei que não é o caso de todos os programadores: alguns são apaixonados pelo código em si, e para esses a transição será mais difícil.


A IA não acelera tudo: o limite é humano

Imaginamos muitas vezes que a IA acelera tudo, ao infinito. Na prática, quanto mais pessoas juntas num projeto, menor é o ganho. O conhecimento tem sempre de ser partilhado, os desacordos resolvidos, as direções alinhadas. Vivi isto numa startup que passou de menos de dez para trinta e cinco pessoas: éramos três ou quatro vezes mais, sem ir três ou quatro vezes mais depressa. Enquanto houver humano no processo, este limite mantém-se.


Pequenas estruturas, novas oportunidades

A minha convicção para os próximos anos: vamos ver nascer muito mais pequenos negócios e produtos muito de nicho. Aplicações altamente específicas que nunca teriam existido antes, porque nunca teriam justificado uma equipa e um grande investimento. Um independente ou uma pequena agência pode agora atacar esse terreno.

As grandes estruturas continuarão a existir, porque servem um mercado diferente. Quando trabalhei para um grande grupo como a Nestlé, o desafio não era a velocidade de desenvolvimento, mas as reuniões, o reporting, a segurança e os padrões. Essa necessidade não muda com a IA.


O que não muda: a relação e o sentido

Muitas profissões vão ser afetadas, algumas profundamente, como a medicina, onde já se diagnosticam coisas que eram indetetáveis há alguns anos. Mas o lado humano permanece: compreender um parceiro, traduzir uma missão numa solução concreta, trazer discernimento.

Vê-se bem no design. A IA gera um logótipo em dois segundos, mas sem a reflexão nem a compreensão do contexto que um bom designer traz. O seu valor não desaparece, muito pelo contrário.


O conselho do Toni: manter a curiosidade

A quem começa a sentir a profissão afetada, o meu conselho cabe numa palavra: curiosidade. Interessar-se pelo que estas ferramentas sabem fazer, manter-se flexível, aceitar que a profissão vai mudar. A IA é também uma ferramenta notável para subir de nível:

É o melhor professor que alguma vez existiu. Não percebes? Pede-lhe para explicar de novo com um exemplo de futebol, ou com maçãs. Encontra sempre uma forma.


Otimista, mas com nuances

Sobre o futuro, mantenho-me bastante otimista, com nuances. Haverá excessos? Provavelmente, mas já existem. Como em cada revolução industrial, haverá excessos dos dois lados, nem tudo bom nem tudo mau. Uma certeza, porém: vamos viver grandes mudanças, e teremos de as atravessar para perceber para onde nos levam.

Se tudo isto nos permitir recuperar tempo para coisas que fazem sentido, então é uma boa notícia.


Obrigado ao Florian Amstutz e à PeopleUp pelo convite e pela qualidade da conversa.

Toni Dias

Toni Dias

Engenheiro de software e parceiro técnico · AsuOs